Porquê da Complexidade do sistema financeiro

Quando aprofundamos o nosso conhecimento sobre o sistema financeiro e todos os instrumentos e produtos que estão disponíveis às pessoas e empresas, nos bancos de retalho, facilmente verificamos que a complexidade parece não ter fim e quanto mais aprofundamos mais complexidade encontramos. Poder-se-ia pensar que esta complexidade crescente é causada pelo aumento dos coeficientes de inteligência da população ao longo dos anos, no que diz respeito à inteligência não-verbal, mas essa justificação deixa muitas coisas por explicar.

As grandes bases financeiras estão suportadas num mercado racional onde as pessoas tomam decisões racionais e fundamentadas. As instituições financeiras centrais acreditam que isto é possível oferecendo toda a informação aos investidores para tomarem a melhor decisão. A verdade é que o cenário racional é utópico e os investidores têm uma capacidade limitada de processar e analisar a informação que lhes é mostrada. Não será apenas por ter mais informação que o investidor vai tomar uma decisão mais racional.

Mas porquê este aumento de complexidade dos produtos financeiros?

Uma primeira explicação poderia ser a tentativa de oferecer produtos mais variados aos clientes. Criar produtos mais populares que fossem mais eficientes, por exemplo com eficiências tributárias, levaria a um aumento de complexidade para atender a essa procura. Uma consequência disso que iria aumentar a magnitude do problema é que com o aumento da complexidade os investidores menos qualificados tendem a sair do mercado, levando a um ciclo de mais qualificação e mais complexidade no mundo financeiro.

A criação de produtos complexos para explorar mais as oportunidades e oferecer um maior leque de produtos aos clientes poderia ser uma explicação mas a verdade é que esses produtos complexos não estão a ser oferecidos aos investidores mais sofisticados, através da banca privada mas sim aos investidores menos qualificados através dos bancos de poupança e crédito.

Uma outra explicação para o aumento da complexidade dos produtos é a criação de uma “camada de nevoeiro” entre o investidor e os produtos de forma a tornar mais difícil a compreensão e avaliação de preço do mesmo. Quando se adicionam mais características, complementos e atributos a um produto, a partir de um produto base, estamos a aumentar a complexidade e a tornar o processo de análise do mesmo mais moroso. Para além disso, também estamos a diferenciar o produto de um banco do produtos de outro banco, tornando-se bastante difícil fazer uma comparação entre ambos. Este aumento de tempo de análise necessário faz aumentar os custos marginais o que poderá levar a um monopólio no produto em causa, trazendo assim mais lucros às entidades financeiras.

Para compensar essa perda de lucros, a criação de mais produtos complexos é despoletada de forma a captar mais investidores menos sofisticados e com isso colmatar a redução de lucros.

As empresas financeiras ao criar complexidade conseguem também criar ignorância, tornando a avaliação de preços mais difícil. Os investidores mais sofisticados escolhem sempre de acordo com as melhores opções possíveis e por isso os bancos não conseguem influenciar muito as suas decisões mas os investidores menos sofisticados compram com base na opinião do seu banco ou com base em outro fatores pouco racionais. Cada banco no sistema financeiro consegue captar uma fração dos dois tipos de investidores mas quando a concorrência se intensifica ou fatores externos tornam o negócio menos atrativo, os investidores sofisticados saem. Para compensar essa perda de lucros, a criação de mais produtos complexos é despoletada de forma a captar mais investidores menos sofisticados e com isso colmatar a redução de lucros.

As empresas financeiras aumentam a complexidade dos produtos para preservar os seus lucros em situações de elevada concorrência. Isto pode ser verificado desde o início dos anos 2000, onde períodos de mais competitividade dentro do setor financeiro coincidiram com períodos de elevado crescimento na complexidade dos produtos. A complexidade financeira não é mais do que uma forma de diferenciação e de criação de estratégias de gestão por parte das empresas financeiras para explorar melhor o mercado e conseguir retirar mais valor por essa via.

O autor não possui interesses diretos ou indiretos nos exemplos mostrados, sendo estes única e exclusivamente de caracter didático.

Fontes: Claire Célérier, Boris Vallé, “What drives financial complexity – A look into the retail market of structured products »

One Comment

  1. Fevereiro 15, 2020
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    Great content! Super high-quality! Keep it up! 🙂

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